Fama e Anonimato

A cidade virou arte: os altos e baixos da Virada Cultural 2025 em São Paulo

Virada Cultural 2025 levou cerca de 4,7 milhões de pessoas as ruas de São Paulo em dois dias de evento, com segurança mas com falhas em algumas estruturas

A Virada Cultural de São Paulo comemorou duas décadas de existência prometendo “20 anos em 24 horas”, com mais de 800 atrações gratuitas, espalhadas por 21 palcos em todas as regiões da cidade – da Zona Norte ao Capão Redondo, do Copan ao CEU da Zona Leste. A promessa foi ousada, e a programação contou com super shows como João Gomes, Liniker, Belo, Vanessa da Mata e Iza, mas também deu espaço – e muito – para teatro, comédia e até um palco com mágica 24 horas.

Desde 2022, quando cenas de violência e de arrastões tomaram conta da 17ª edição da Virada Cultural, a prefeitura de São Paulo repensou o evento na tentativa de tornar a experiência mais segura. Deu certo, cenas antes impensáveis no cotidiano paulistano, como andar pelo Centro Histórico ao longo da noite com o celular na mão, foram frequentes ao longo deste fim de semana. O resultado foi uma celebração as mais variadas forma de arte, com alguns perrengues típicos de um evento gigante como esse.

Destaques no palco — e fora dele

Aparelhagem Tudão Crocodilo foi um dos destaques do Vale do Anhangabaú, com sucessos do tecnobrega paraense

No quesito shows, teve opções para todos os gostos e nos quatro cantos da cidade: Falamansa no Campo Limpo, Alceu Valença em Itaquera, Léo Santana em São Miguel, Djonga em Sapopemba. No centro, o palco do Vale do Anhangabaú foi o principal polo de aglomeração. No sábado, Belo fez o show mais lotado, com falhas no som que acabaram interrompendo a apresentação. Ele não foi o único, Karol Conka e Rashid também enfrentaram atrasos e problemas técnicos.

No Domingo, Liniker fez o maior show da carreira, e emocionou com faixas do disco Caju. João Gomes, mesmo com 40 minutos de atraso, embalou corações com Dengo e Meu Pedaço de Pecado. Entre as boas surpresas, nada supera a aparelhagem paraense Tudão Crocodilo, presente no Vale do Anhangabaú, e que se apresentava nos intervalos dos principais shows do palco principal.

O “Croco” como é conhecido é um crocodilo metálico de 9 metros de comprimento e 3 metros de altura, equipado com som, luzes e painéis de LED. Foi a primeira vez que a aparelhagem paraense se apresentou em São Paulo. Para chegar na capital, uma carreta de 22 metros atravessou o país até o Anhangabaú, onde contou com as participações especiais como Gaby Amarantos, Viviane Batidão, Jaloo e Gang do Eletro, e que por vezes roubou o protagonismo dos shows principais.

Monólogos, Stand-ups e mágica pelo centro

Clayton Nascimento apresenta o monólogo “Macacos” na Praça Roosevelt, que foi palco de outras encenações

A programação foi além da música e mostrou que São Paulo também respira humor, teatro e ilusionismo. No Edifício Copan, um dos ícones da cidade, o humor foi protagonista com sessões de stand-up que reuniram nomes como Léo Ferreira, Bruna Braga, Thiago Ventura, Marcela Leal e Oscar Filho. Já na Praça Roosevelt, o clima era de reflexão com monólogos que tomaram conta do espaço.

Por lá se apresentaram a partir de sábado entre outros Grace Gianoukas com Nasci para Ser Dercy; Hugo Possolo com Prego na Testa; e no domingo, encerrando a programação no local, Clayton Nascimento apresentou Macacos, para um público que assistia sentado nos degraus da praça ou nas arquibancadas improvisadas, vendo a cidade literalmente virar palco.

Já nos arredores da Prefeitura, foi criado um espaço chamado de “circuito mágico”, que reuniu artistas que apresentaram truques com cartas, levitação e escapismo, em uma programação que não parou nem mesmo durante a madrugada. Do Largo do Arouche à Galeria Olido, tudo respirava arte. Instituições como o MASP, SESC, IMS e Japan House também contribuíram com ações especiais e experiências visuais que conectaram público e cidade de forma íntima. Porém, nem tudo foi flores.

Prefeitura subestimou alguns palcos, mas entregou segurança

Pessoas tiveram que escalar estruturas e banheiros químicos na rua XV de Novembro para acompanhar alguns shows

Apesar do investimento de R$ 54 milhões, a edição enfrentou problemas. A troca brusca de estilos musicais em alguns palcos (Belo para Silva, por exemplo) causou esvaziamento do público. E teve artista cancelando de última hora sem qualquer aviso, como Marina Lima. Já no que diz respeito a estrutura de alguns palcos, a Prefeitura subestimou os artistas envolvidos e, consequentemente, o público que iria os prestigiar.

O palco da rua XV de novembro e adjacentes, onde se apresentaram King Yellowman e Russo Passapusso, do BaianaSystem, montado no chão, gerou criticas, e levou o público a escalar estruturas e portões. Já nos palcos menores, destinados às festas de rua, atrações como a Novo Affair acabaram por aglomerar e sufocar o público no Largo do Café.

No Vale do Anhangabaú, no Centro, o esquema de segurança concentrou a entrada principal ao local pela esquina da Praça Ramos de Azevedo, afunilando o público em uma revista corporal feita por funcionários terceirizados. Segundo a Prefeitura de São Paulo, cerca de 4,7 milhões de pessoas frequentaram o evento. A Guarda Civil Metropolitana (GCM) registrou 17 ocorrências atendidas e 12 pessoas foram conduzidas a delegacias.

Os 21 palcos foram monitorados com o apoio de drones e câmeras do Smart Sampa. Além disso, 10 mil profissionais de segurança reforçam o policiamento, sendo 4.200 policiais militares, 1.900 guardas civis metropolitanos e 3.860 seguranças privados. A Virada Cultural passou uma sensação de segurança para quem esteve presente, especialmente no Centro. Houveram perrengues em alguns palcos e para comprar bebida nos arredores. Contudo, não faltou coragem de ocupar as ruas com arte.