
A derrota por 4 a 1 para a Argentina, no último dia 25 de março, escancarou o que já se desenhava há algum tempo: a Seleção Brasileira está sem rumo. Mais do que o placar, o que chocou foi a facilidade com que os atuais campeões do mundo dominaram o clássico. Três dias depois, a consequência era inevitável — Dorival Júnior foi demitido do cargo de técnico da Seleção, encerrando um ciclo curto e sem identidade.
Desde que assumiu o comando, Dorival teve um desempenho irregular: em sete partidas pelas Eliminatórias, foram três vitórias, dois empates e duas derrotas. Soma-se a isso a eliminação para o Uruguai nas quartas de final da Copa América 2024. Em 2025, apenas dois jogos: uma vitória contra a Colômbia e o vexame histórico contra os argentinos.
A crise, no entanto, vai além das quatro linhas. O fracasso diante dos argentinos colocou a gestão de Ednaldo Rodrigues, presidente da CBF, sob os holofotes. A promessa de “novos sonhos para sonhar”, slogan usado quando Dorival foi anunciado em janeiro de 2024, agora soa vazia. Sem treinador e sem uma equipe base, o projeto da CBF para o ciclo até a Copa de 2026 está, mais uma vez, de volta à estaca zero.
Novo técnico: indefinições e velhos desejos
A Confederação Brasileira de Futebol promete anunciar um novo treinador até o dia 2 de junho, próxima data FIFA. O “plano A” voltou a ser Carlo Ancelotti — o mesmo nome que já havia recusado o convite anteriormente para seguir no Real Madrid. Caso o italiano não aceite, os portugueses Jorge Jesus e Abel Ferreira aparecem como alternativas.
Com a goleada sofrida diante da Argentina, válida pela 14ª rodada das Eliminatórias da Copa de 2026, o Brasil caiu para a quarta colocação, com 21 pontos — dois a menos que o Equador, próximo adversário no dia 5 de junho. Apesar do cenário preocupante, a vaga para o Mundial não está ameaçada: além das seis vagas diretas, o sétimo colocado ainda disputa uma repescagem contra uma equipe da Oceania.
Enquanto isso, o torcedor observa de longe, sem esperanças renovadas. O futebol nacional vive um paradoxo: poucos jogadores do Campeonato Brasileiro tem oportunidade na seleção brasileira. O protagonismo ainda está nas mãos de atletas que brilham na Europa — o que ajuda a explicar a desconexão crescente entre a Seleção e o torcedor brasileiro. O tratamento só é diferente para um jogador.
Recai sobre Neymar Júnior, aos 33 anos, a expectativa de um resgate técnico e simbólico da equipe. Após um longo período afastado por lesões, ele ainda não estreou no Campeonato Brasileiro 2025 e seu retorno à Seleção segue cercado de dúvidas. O auge físico e técnico já passaram, mas o status de Neymar dentro do mundo futebol, especialmente o brasileiro, parecem garantir um lugar para ele com a camisa amarela do Brasil em qualquer nível que ele se encontre.
Românticos ainda sonham com um roteiro semelhante ao de Ronaldo Fenômeno em 2002, quando, desacreditado, ressurgiu de grave lesão e levou o Brasil à conquista do penta. Só que a realidade atual é menos heroica e mais preocupante. Neymar entrou em campo 20 vezes desde a copa de 2022, e estará com oito anos a mais em 2026 do que o fenômeno tinha em 2002. Esse parece ser o único trunfo de quem comanda o futebol brasileiro.
CBF seguirá com mesmo presidente até 2030

O vexame em campo coincidiu com um movimento político nos bastidores. Dois dias antes do jogo contra a Argentina, Ednaldo Rodrigues foi reeleito presidente da CBF até 2030 — com possibilidade de um novo mandato até 2034. Sua volta ao cargo em janeiro de 2024 foi garantida por uma liminar do STF, após ter sido afastado no fim de 2023 por irregularidades eleitorais.
A reeleição foi unânime, mesmo diante de tentativas de renovação. Ronaldo Fenômeno chegou a anunciar sua pré-candidatura, mas desistiu após relatar falta total de abertura por parte das federações. Segundo ele, 23 das 27 entidades se recusaram até a recebê-lo. “Não pude apresentar meu projeto, levar minhas ideias e ouvi-las como gostaria. Não houve qualquer abertura para o diálogo”, afirmou em nota.
Para alguns clubes, como declarou o presidente do Internacional, Alessandro Barcelos, a manutenção de Ednaldo no comando da CBF é vista como estratégica para viabilizar a criação de uma Liga Nacional de Clubes, prevista para 2027. Até lá, porém, o Campeonato Brasileiro segue sendo o principal palco do futebol nacional.
Com menos de um ano para a Copa do Mundo de 2026, o Brasil está sem técnico, sem time-base e sem confiança popular. A gestão segue apostando em nomes que já disseram “não” no passado, enquanto os torcedores esperam — mais por hábito do que por esperança — que algo mude. O problema é que, ao contrário de 2002, a selação brasileira de hoje é uma completa desconhecida.




