
Em um trecho do obituário publicado pelo The New York Times, Gordon Parks é comparado a Jackie Robinson, o primeiro negro a atuar na liga profissional de beisebol dos Estados Unidos. É uma boa analogia, afinal Parks foi o primeiro fotógrafo negro da revista Life, maior periódico de fotografia do século XX, e também o primeiro diretor negro a produzir e dirigir um grande filme de Hollywood.
Esse pioneirismo é o eixo central da exposição América Sou Eu, em cartaz no Instituto Moreira Salles até 1º de março de 2026. A mostra reúne mais de 200 obras, entre fotografias, filmes, periódicos e livros, ocupando o sexto e o sétimo andar do IMS como uma ampla galeria dedicada ao fotografo e cineasta que abriu caminhos historicamente fechados .
Life e o olhar sobre o mundo

Nascido no Kansas em 1912, Gordon Parks teve uma carreira marcada pela persistência e pela habilidade de se aproximar de seus personagens, independentemente do lugar que ocupavam na sociedade. Entrou para a revista Life em 1948, onde permaneceu até 1972, e ao longo de mais de duas décadas, fotografou desde estrelas de cinema e figuras públicas a comunidades pobres e marginalizadas, dentro e fora dos Estados Unidos.
Entre as reportagens mais conhecidas está o trabalho realizado no Rio de Janeiro, publicado em 1961, que acompanhava a vida de Flavio da Silva, um menino gravemente doente que vivia em uma favela. Após a publicação, a repercussão levou ao financiamento de seu tratamento médico em Denver, nos Estados Unidos, além da construção de uma nova casa para a família no Brasil.
Outra imagem central de sua produção é American Gothic, retrato de Ella Watson, uma mulher negra que trabalhava como faxineira em Washington. Fotografada diante da bandeira dos Estados Unidos, segurando um rodo e uma vassoura, a imagem tornou-se um dos registros mais conhecidos da desigualdade racial no país.
Do cinema ao Hip-Hop

Na década de 1960, ele começou a escrever memórias, romances, poemas e roteiros, o que o levou a dirigir filmes. Um dos contos que escreveu, The Learning Tree, virou filme em 1969, e Parks foi o diretor, o que fez dele o primeiro artista negro a produzir e dirigir um grande filme de Hollywood. Dali ele fez a ponte para colocar protagonistas negros em diversos gêneros e ser pioneiro na chamada Blaxploitation, com filmes como Shaft e a sequência Shaft Big Score.
Depois de deixar a revista Life, onde atuou por mais de duas décadas, Gordon Parks ampliou sua produção artística para além do fotojornalismo e passou a atuar de forma mais autônoma a partir do fim dos anos 1970. Nesse período, manteve vínculo com o cinema, desenvolvendo roteiros e projetos audiovisuais, ao mesmo tempo em que se consolidou como escritor, com a publicação de romances, poesia e quatro volumes de memórias dedicados a temas como raça, identidade e criação artística.
Paralelamente, Parks dedicou-se à composição musical, com obras orquestrais e peças para piano, e à organização de exposições retrospectivas que revisitavam seu próprio acervo. Essa ligação com a música também é simbolizada em “A Great Day in Hip Hop” , foto de 1998, feita para a revista XXL, em que 177 nomes do hip-hop estão reunidos no Harlem, em referência direta ao clássico registro do jazz feito por Art Kane quatro décadas antes.

Gordon Parks faleceu em 7 de março de 2006, aos 93 anos, nos Estados Unidos, porém sua obra perdura. Um exemplo é o clipe Element do rapper Kendrick Lammar que faz toda uma releitura de fotos de Parks, que em uma de suas memórias escreveu “Ainda não sei exatamente quem eu sou… desapareci dentro de mim mesmo de tantas formas.”
Não a toa, o escritor Donald Faulkner disse no obituário do New York Times que Gordon Parks era como Jackie Robinson do cinema, pois ele quebrou barreiras e abriu caminhos para que cineastas como Spike Lee e John Singleton surgissem. Esse legado complexo e profundamente atual é o que a exposição no Instituto Moreira Salles propõe revisitar.
Ao reunir fotografias, documentos e registros de diferentes fases da carreira do fotografo, a mostra evidencia como sua obra permanece fundamental para compreender as relações entre imagem, poder, raça e representação. Mais do que uma retrospectiva, a exposição reafirma Gordon Parks como um cronista visual do seu tempo, cuja obra continua a dialogar com os dilemas do presente.




