
Na noite de domingo, 25 de julho de 1965, Bob Dylan subiu ao palco do Newport Folk Festival. Ele tocava uma guitarra elétrica Fender e, pela primeira vez ao vivo, estava acompanhado por uma banda de rock ’n’ roll amplificada. Eles tocaram três músicas. O caos se instalou, E a carreira do artista nunca mais foi a mesma.
A representação desses eventos constitui o clímax da nova cinebiografia A Complete Unknown, com Timothée Chalamet no papel de Dylan. O filme recria o show de Newport com vaias ensurdecedoras, objetos arremessados ao palco e a fúria dos fãs de Folk, pois de alguma forma aquilo era uma ofensa.
Na época Bob Dylan era uma estrela em ascensão na música depois de ter começado a tocar em cafés de Nova York no bairro do Greenwich Village, e ser reconhecido pelas composições e performances com violão e gaita. Ele já havia lançado dois álbuns, incluindo The Freewheelin’ Bob Dylan, que o estabeleceu como uma voz poderosa no movimento folk, com músicas que abordavam questões sociais e políticas.
Todavia, os 20 minutos de apresentação em Newport se tornaram um dos momentos mais lendários do rock. E o fato de Dylan ter plugado uma guitarra no amplificador segue como uma referência para artistas que escolhem o próprio caminho musical, desafiando corajosamente as expectativas de seu público, independentemente das consequências (Vamo Arctic Monkeys!).
O Festival
Newport Folk Festival é um festival anual de música folclórica (ou folk) americana em Newport, Rhode Island, que começou em julho de 1959 como uma contrapartida do já estabelecido Newport Jazz Festival. O festival é muitas vezes considerado um dos primeiros de música moderna na América e continua a ser um ponto focal no gênero sempre em expansão da música folk.
O momento já havia sido mostrado no cinema antes, primeiro em forma de documentário com No Direction Home (2005), de Martin Scorsese, e outros dois registros dirigidos por Murray Lerner, Festival (1967) e The Other Side of the Mirror (2007). De forma ficcional, o evento foi retratado em I’m Not There (2007) do diretor Todd Haynes, em uma cena em que Cate Blanchett) e seus músicos sobem ao palco, abrem os estojos de instrumentos, retiram metralhadoras e disparam contra a plateia.
A representação de Newport em “A Complete Unknown” é baseado no livro Dylan Goes Electric! de Elyjah Wald lançado em 2015. O filme mas transmite a sensação de pandemônio e conflito. Entretanto a pergunta que fica é por que o publico vaiou? Afinal, um dia antes a música Like a Rolling Stone havia entrado nas paradas, e seria apresentada no festival pela primeira vez ao vivo.
Dylan também já havia lançado o álbum Bringing It All Back Home, cuja metade das músicas conta com uma base elétrica, o que ajuda na afirmação de que a plateia não poderia ter sido pega de surpresa. ”Wald disse: “As pessoas que estavam chateadas sempre acharam que Dylan era um deles, e essa apresentação foi uma declaração escancarada de que ele não era.”
Fábulas e mitos
No livro de Elyjah Wald, o autor afirma que muitas coisas foram aumentadas inclusive nos documentários lançados posteriormente, afirmando que Murray Lerner pegou as vaias intensas que aconteceram quando Dylan deixou o palco depois de tocar apenas três músicas e as inseriu depois de Maggie’s Farm para criar a ilusão de que o público o vaiava por tocar uma guitarra elétrica.
Há também a questão do volume. Wald descreve o show de Dylan como “provavelmente a apresentação mais barulhenta que já havia acontecido”, acrescentando que o grupo Chambers Brothers abriu o festival usando instrumentos amplificados sem causar problemas. Pete Seeger, que em A Complete Unknown é interpreatdo por Edward Norton, já declarou que a frustração do publico veio em razão da distorção sonora que impedia ouvir as letras de Dylan.
O filme estrelado por Chalamet também brinca com a cronologia dos fatos, como o momento em que um fã chama Bob Dylan de Judas, antes dele tocar Like a Rolling Stone. Essa cena aparece no filme, mas não aconteceu em Newport; ocorreu quase um ano depois, em Manchester, Inglaterra, quando vaiar instrumentos elétricos já havia se tornado um ritual frequente na turnê mundial do artista. o filme também distoce a realidade ao mostrar o artista voltando ao palco para tocar It’s all over now baby blue.
Outro ponto é a presença da então namorada do cantor, Suze Rotolo (renomeada Sylvie Russo no filme e interpretada por Elle Fanning), ela não esteve no show de 1965. Assim como Johnny Cash, que realmente consolidou uma amizade com Bob Dylan mas não estava presente no festival de 1965. Esses adornos narrativos são fáceis de entender, dada a intenção de Mangold de criar uma “fábula” sobre os primeiros anos de Dylan, não um documentário.
Newport é, sem dúvida um ponto de virada, e o maior paradoxo pode ser que a hostilidade enfrentada por Dylan, seja qual for a real razão, acabou sendo crucial para o futuro criativo do artista. “E se não tivesse sido vaiado, a narrativa seria que Dylan largou o folk e virou um astro pop. As vaias foram, na verdade, o que permitiu que Dylan realizasse seu objetivo de se tornar elétrico e ainda assim fosse visto como alguém que seguiu seu próprio caminho, sem se importar com a fama”, disse Wald




