Fama e Anonimato

RHCP lota o Morumbi 30 anos depois da primeira apresentação em São Paulo

60 mil pessoas lotaram o estádio do Morumbi para acompanhar o show do Red Hot Chili Peppers

A estação Higienópolis Mackenzie estava movimentada quando cheguei. Era sexta-feira, horário de pico em São Paulo, eu precisava passar por sete estações da linha amarela e caminhar por mais um quilometro e meio até chegar ao Estádio Morumbi, meu destino para ver o show da banda californiana Red Hot Chili Peppers, marcado para às 21 horas.

Nem todos que entraram no metrô comigo estavam indo para o show. Na verdade, somente depois da estação Pinheiros, que faz conexão com a linha de trem da CPTM, é que as camisetas com símbolo vermelho do RHCP começaram a ser predominantes. Aquela seria a terceira das cinco apresentações do grupo no Brasil, em meio a turnê Global Stadium Tour, que passou por Rio de Janeiro, Brasília e depois da capital paulista iria para Curitiba e Porto Alegre.

Dentro do vagão, o anuncio sonoro das estações foi antecedido por um aviso da empresa ViaQuatro, que administra a linha amarela, acompanhado por solos de guitarra de John Frusciante, uma das grandes atrações do show daquela noite. Pouco mais de 20 minutos depois de descer as escadas rolantes na Mackenzie, e escutar trechos de Scar Tissue e Californication ao longo do caminho, eu desembarquei, mas ainda estava longe de me acomodar no estádio.

Em 2023, ir a um show de grande proporções como aquele é sinônimo de persistência: você deve se organizar para conseguir comprar o ingresso – às vezes nos lugares que sobram – estar preparado para no dia encarar um trânsito pesado, caminhar bastante, pagar caro na cerveja e mesmo assim pode ser que o artista não toque a musica que você gostaria de ouvir.

A banda

RHCP da esquerda para direita: John Frusciante, Flea, Chad Smith e Anthony Kiedis

Trinta anos, e oito álbuns, separam a primeira apresentação daquela que seria a sétima passagem do Red Hot Chili Peppers por São Paulo. Em 1993 eles vieram para o festival Hollywood Rock, também realizado no Morumbi, e que contou com apresentações dos grunges do Nirvana e do Alice in Chains. O último show dos californianos na capital paulista foi no Lollapalooza, em 2018, quando o guitarrista ainda era Josh Klinghoffe.

No dia 10/11/2023, eles estavam de volta, e dessa vez com a formação mais conhecida, com Anthony Kiedis (vocal), Flea (baixo), Chad Smith (bateria) e John Frusciante (guitarra), que voltou em 2019, dez anos depois de sair pela segunda vez da banda. Juntos, e sob a batuta do produtor Rick Rubin, os quatro gravaram os discos de maior sucesso comercial do grupo – Blood Sugar Sex Magik, Californication e By the Way.

Anthony Kiedis e Flea lançaram autobiografias sobre os bastidores de abuso de drogas, e são os únicos remanescentes de quando a banda foi formada em 1982. Ao total, o RHCP teve 14 membros diferentes, lançou 13 discos e até o momento vendeu mais de 80 milhões de álbuns no mundo, além de vencer seis prêmios Grammy. Todo esse sucesso era representado pela horda de pessoas que desceram do metrô junto comigo rumo ao estádio.

O caminho

Faixa que indicava que a Avenida Jorge João Saad estaria fechada no dia do show

Da estação Morumbi até o estádio são mais 20 minutos de caminhada pela Avenida Jorge João Saad, fechada em dias de show. No caminho, além de policiais com armaduras parecidas com as do Robocop, era possível comprar todos os tipos de produtos relativos a banda, como camisetas, bonés e bandanas.

Alguns comerciantes tentavam atrair a multidão tocando musicas dos Chili Peppers em caixinhas de som. Mas a vida desses vendedores não é fácil, e quando algum deles percebia a chegada da fiscalização, a correria era grande para evitar algum tipo de multa, apreensão de mercadorias ou os dois.

Uma camiseta do RHCP custava R$60 reais, o valor poderia ser maior dependendo do vendedor

Meu ingresso era de arquibancada, e o portão de acesso era o 15. Quando cheguei em frente ao estádio a fila para entrar fazia a volta ao longo da Avenida Giovanni Gronchi. Pelo número de pessoas que lá estavam, pensei que entraria em cima da hora, mas quando o relógio marcou 20:15 eu estava dentro do Morumbi, em tempo para ouvir as duas últimas músicas da banda de abertura, Irontom, e comprar duas cervejas.

Antes, era necessário pegar uma pulseira para provar que eu era maior de 18 anos, fato que encarei como um certo elogio. Com ela no pulso, paguei R$16,00 reais em uma lata de 330 ml, e caso quisesse levar o copo personalizado – souvenir obrigatório nos shows hoje em dia – me custaria um total de R$50,00 reais. Disse não obrigado, segui para a arquibancada, onde conseguiria um bom lugar e faltando quinze minutos para os Chili Peppers subirem ao palco eu finalmente estava pronto para apresentação.

O show

Acordes inicias de Under The Bridge, penúltima música do show

O show começou com três sucessos — Can’t Stop, The Zephyr Song e Snow (Hey Oh) – todos da fase que teve Frusciante na guitarra entre os anos 1990 e início dos anos 2000. Depois de agradar o público, o setlist intercalou sucessos e musicas dos novos albuns – Unlimited Love e Return of the Dream Canteen – em meio a jam sessions e um cover dos Ramones. Ao total foram 19 canções e quase duas horas de espetáculo.

No show anterior, em Brasília, parte do público reclamou nas redes sociais que a banda abriu mão de hits e fez um show curto. Para os fãs mais assíduos, por outro lado, o comentário foi o privilégio de ver raridades como Throw Away Your Television, Pea e I Could Have Lied. Em São Paulo, tiveram mais hits como Parallel Universe, mas como de praxe, não houveram grandes interações do quarteto com a plateia, nem sequer um trabalho de iluminação ou cenografia muito elaborados.

Se o Coldplay, no mesmo Morumbi este ano levou palcos múltiplos, pulseiras luminosas e pirotecnia, o que iluminou o estádio naquela noite foram as lanternas dos celulares. Parte do sucesso do Red Hot Chili Peppers está na recusa de se render a performances plastificadas e não ceder aos fãs, principalmente aqueles que acreditam que podem exigir algo do artista simplesmente por ter comprado um ingresso.

As mais de 60 mil pessoas que lotaram o Morumbi aparentavam estar satisfeitas com o setlist, que encerrou a apresentação com dois dos maiores sucessos da banda: Under the Bridge e Give it Away. Essa, a mesma música que fechou a primeira apresentação da banda em São Paulo há trinta anos.

O perrengue final

Estação Morumbi da linha amarela bloqueada pela tropa de choque na saída do show

Ainda haviam dois tíquetes de cerveja no meu bolso, mas logo fui informado que a bebida havia acabado em quase todos os pontos de venda, e com a informação de que não poderia nem ao menos troca-los por outros produtos, muito menos ter meu dinheiro de volta, me restou peregrinar em meio à pessoas reclamando até encontrar as últimas cervejas disponíveis. Passados 40 minutos da última música do show, eu comecei a deixar o Morumbi.

O caminho de volta a principio seria o mesmo: caminhada até o metrô e depois caminhada até em casa, mas a massa que saiu do estádio logo viu que o perrengue seria grande pois o batalhão da tropa de choque da policia estava na frente da estação, impedindo qualquer pessoa de entrar. Nesse meio tempo, reparei que alguns ambulantes já haviam trocado as mercadorias para os futuros shows da cidade – RBD e Taylor Swift – os quais teriam mais perrengues ainda.

Ir em um show em estádio em 2023 é um teste e um convite ao endividamento. Minha solução foi encarar a fila do ônibus, que tinha menos gente, mas nem por isso estava menos lotado. Voltei como uma sardinha enlatada, sem solo de guitarra, até que o veiculo esvaziou na Avenida Paulista. A única coisa que faz com que todo esse perrengue valha a pena são os artistas, como no caso do Red Hot Chili Peppers naquela noite.