
No dia 30 de outubro de 1938, um programa de rádio simulou uma invasão extraterrestre e “supostamente” desencadeou pânico na costa leste dos Estados Unidos. Supostamente pois se sabe hoje que não houve tumulto por conta dessa simulação. Mas o rumor grudou no fato, e quanto mais o tempo passa, maior é a repercussão dessa radionovela que reforçou a rivalidade entre o rádio e o jornal e pavimentou o caminho para um jovem diretor fazer um dos maiores filmes da história do cinema.
Contexto
A década de 1930 é conhecida como a era de ouro do rádio. O aparelho era a rede social da época: rápido, instantâneo e mais dinâmico do que o jornal impresso. A televisão já existia, mas era pouco acessível, e o cinema fazia a transição dos filmes mudos para falados.
Nos Estados Unidos pós crise econômica de 1929, 22 milhões de domicílios possuíam pelo menos um aparelho de rádio, que sintonizavam as mais de 600 estações existentes, as quais grande parte funcionava em tempo integral, permanecendo no ar entre 16 e 18 horas por dia. A fama e o dinheiro estavam nas ondas AM, e a disputa pelos ouvintes abraçava qualquer que fosse a ideia desde que desse audiência.
Em julho de 1938, estreou na Columbia Broadcasting System (CBS), o programa The Mercury Theatre on the Air, uma série de radionovelas ao vivo, criadas e apresentadas por Orson Welles, que adaptava clássicos da literatura para um programa de uma hora com ajuda de uma orquestra sinfônica. O primeiro livro foi Dracula de Bram Stoker, e o décimo sétimo foi Guerra dos Mundos, do escritor inglês Herbert George Wells, que foi ao ar na véspera do dia das bruxas de 38.
A transmissão

O enredo do livro trata da chegada de centenas de marcianos a bordo de naves extraterrestres, que na adaptação para o rádio começou a partir de uma invasão na cidade de Grover’s mill, perto de New Jersey. O programa foi ao ar às oito horas da noite com um início muito claro por parte de um locutor da CBS anunciando qual era o livro daquele dia. Na sequência, o locutor passa a palavra para Orson Welles, que não se apresenta e dá início a encenação com uma introdução em tom misterioso.
Ao fim da introdução, uma falsa programação de rádio começa com uma previsão do tempo, e na sequência dá lugar a um programa de musica clássica, transmitido direto do Hotel Plaza em Nova York. A música começa e logo nos primeiros instantes é interrompida pela primeira vez com um boletim extraordinário, onde um repórter traz a noticia de que foram vistas algumas explosões estranhas na superfície de Marte.
A música volta, mas novamente é interrompida com um novo boletim: a rádio fará uma entrevista com um especialista para tratar os fenômenos extraterrestres logo depois do programa de música. Ao vivo de Princeton, Nova Jersey, o professor Richard Pierson (interpretado por Welles) fala que algo de estranho caiu na terra vindo do céu. A cobertura continua in loco até o momento que a invasão começa e o repórter é atacado por marcianos. Por fim, o sinal de transmissão cortado.
O desfecho da história se dá com a revelação de que os marcianos foram derrotados por bactérias as quais os humanos eram imunes. Tudo isso em uma hora de programa, que, segundo a CBS calculou à época, foi ouvido por cerca de seis milhões de pessoas, das quais mais da metade sintonizou quando o programa já havia começado e não pegaram a introdução que informava tratar-se de uma radionovela semanal.
No final do programa Orson Welles se apresenta fora do personagem e diz que aquela era uma maneira do programa Mercury Theatre On Air “sair de um arbusto com um pano na cabeça e dizer “boo”. Era véspera do dia das bruxas e ele conclui dizendo, “então boa noite a todos e se amanhã sua campainha tocar e você não ver ninguém, não são marcianos, é Halloween”.
O impacto do programa

Orson Welles e sua trupe de atores usaram a plataforma da CBS para “reportar” com todas as características do radiojornalismo da época – reportagens externas, entrevistas com testemunhas, opiniões de peritos e autoridades – que o planeta terra estava sendo invadido por marcianos. Os jornais do dia seguinte recriminaram a atitude do programa e noticiaram que uma onda de pânico atravessou os Estados Unidos.
Desde então é aceito como fato de que aquela transmissão apavorou milhares de ouvintes norte-americanos, que chegaram a evacuar às áreas que estavam sendo invadidas. Mas passados mais de setenta anos, a revista norte-americana Slate resolveu ver a proporção desse terror noticiado pelos jornais.
Entrevistando pessoas que trabalhavam na CBS na época, a reportagem concluiu que o suposto pânico foi tão pequeno que ele é praticamente imensurável. Algumas pessoas ligaram para a emissora, umas pedindo informações, outras criticando e outras elogiando o programa, mas nada perto de uma calamidade pública. Outro fato importante é que a audiência não foi tão grande assim, afinal o programa tinha grandes concorrentes em outras estações que passavam no mesmo horário.
Mas então como que esse mito se criou? De acordo com a pesquisa da revista Slate, os jornais da época transformaram o pânico em sensacionalismo para provar aos anunciantes que o rádio era algo feito de forma irresponsável e que não era digno de confiança. Era uma oportunidade para atacar um sério concorrente de audiência e publicidade. “O rádio é novo, mas tem responsabilidades adultas”, repreendeu o jornal New York Times.
Mas as criticas não diminuíram a qualidade do programa, o qual soube explorar o fato de que na década de 1930 os ouvintes norte-americanos descobriram no rádio não apenas uma fonte de entretenimento mas, principalmente, de informação. Mesmo taxado de irresponsável, Orson Welles ganhou grande apelo popular e por consequência recebeu carta branca de um estúdio aos 23 anos para fazer o primeiro filme para o cinema do jeito que quisesse.
Quem foi Orson Welles
Orson Welles, o “menino prodígio” de Hollywood, hoje encarado como um dos maiores cineastas de todos os tempos, nasceu em 1915 na cidade de Kenosha, nos Estados Unidos. É prodígio pois antes dos vinte seis anos de vida marcou o teatro, o rádio e o cinema.
No teatro, Welles chamou atenção com adaptações pouco ortodoxas, como Macbeth de Shakespeare, a qual todos os atores eram negros. No rádio, aos 22 anos, ele seria conhecido primeiro no programa The Shadow (o sombra) e posteriormente com as radionovelas adaptadas como Guerra dos Mundos.
Ele mudaria a maneira de contar uma história no cinema com o primeiro filme que dirigiu, Cidadão Kane, de 1941. Com um roteiro não linear e que se concentra na vida de Charles Foster Kane (interpretado por Welles), um magnata da imprensa que morre sozinho sussurrando a palavra –“Rosebud”, Cidadão Kane entraria para história como um dos filmes que revolucionou o cinema, e que consagraria de vez o diretor.

Welles afirmava que “um estúdio de cinema é o maior brinquedo que uma criança poderia ter”. Porém, ao mesmo tempo que era criativo, o cineasta possuía uma personalidade difícil e, em alguns casos, descrita como impositiva. Essa característica o isolou de Hollywood a ponto de se mudar para Europa em 1947 e começar uma carreira como diretor independente.
Esporadicamente, ele fez aparições em obras como a primeira versão de 007 Cassino Royale de 1967 ou o filme dos Muppets de 1979. Mas até falecer em 1985, aos 70 anos, Welles não repetiu o sucesso do primeiro filme que dirigiu.
Cidadão Kane venceu apenas um Oscar, o de melhor roteiro original, escrito por Herman J. Mankiewicz, cuja própria história e do roteiro que escreveu é contada em mais detalhes no filme Mank do diretor David Fincher. Lançado em 2020, o filme é uma boa perspectiva da personalidade e engenhosidade avassaladoras de Orson Welles.




