Fama e Anonimato

O flâneur paulistano

Adoniran Barbosa nasceu João Rubinato em 1910 em Valinhos no Estado de São Paulo, morreu aos 72 anos

De origem francesa, a palavra flâneur é usada para descrever um andarilho que experimenta a cidade como se quisesse desvenda-la. Um caminhante cuja rua é moradia, e que entre as fachadas dos prédios sente-se em casa. Desde que começou a vir para São Paulo de trem na década de 1930, Adoniran Barbosa criou uma relação profunda com a capital paulista, principalmente com o centro onde morou e por muitos anos trabalhou.

Além de amor e boemia, cantou sobre o crescimento desenfreado da chamada selva de pedra, e como bom flâneur, captou esse processo de urbanização acelerada. Entretanto, no fim da carreira, estava infeliz pois nas próprias palavras por mais que procurasse, não conseguia encontrar a São Paulo que havia conhecido. A população havia aumentado, e quanto mais prédios subiam, mais as antigas casas (ou malocas) iam embora, e com elas todo um modo de vida que era impiedosamente esmagado.

João Rubinato

Estátua de Adoniran Barbosa e do cachorro Peteleco na entrada do Bar Brahma no centro de São Paulo

Adoniran Barbosa nasceu João Rubinato, em Valinhos, 1910. Filho de descendentes de italianos, se mudou com a família primeiro para Jundiaí em 1918, e, posteriormente, para Santo André em 1924. Sonhava em ser cantor, e na década de 1930, começou a vir para São Paulo de trem. Achava que o próprio nome não combinava com a profissão, por isso pegou o nome de um amigo, e o sobrenome do sambista Luiz Barbosa, e formou o nome artístico, Adoniran Barbosa.

No início dos anos 1940, entrou para a Rádio Record depois de muita insistência. Lá ele nunca foi reconhecido como músico ou compositor, mas sim humorista. Na mesma rádio, conheceu o radialista e escritor Osvaldo Moles, que se tornaria seu principal parceiro nos programas de rádio e nas composições musicais.

Como a rádio ficava no centro, ele logo formou uma ligação profunda e íntima com a região por onde transitava e observava o cotidiano de trabalhadores, bares e cortiços de São Paulo. Das observações vieram as músicas, embora Adoniran dissesse que não sabia fazer samba, simplesmente fazia. A primeira música de sua autoria gravada por um outro artista foi Dona Boa, na voz de Raul torres em 1935. mas o primeiro sucesso viria em 1964 com Trem das Onze, gravada pelo grupo Demônios da Garoa.

Trailler do filme Saudosa Maloca, estrelado por Paulo Miklos e lançado em 2024

Adoniran só lançou o primeiro disco homônimo em 1974 , seguido por outro em 1975, e o último em 1980. O estilo de cantar era igual ao do também sambista Orlando Silva, mas o português falado era único, com uma mistura com o italiano e uma maneira errada de falar que chegou a incomodar o poeta Vinicius de Moraes. “É preciso saber falar errado para cantar essas musicas”, teria dito Adoniran que não se importou com as críticas e transformou em música um poema de Vinicius chamado Bom Dia, Tristeza.

Falou sobre amor nas composições Tiro Ao Alvaro e Joga a Chave Meu Bem, sobre o mundo que se sobrepõe a outro em Saudosa Maloca e Despejo na Favela, e muitas canções eram estreladas pelos amigos do Brás – Joca, Arnesto e Mato Grosso. Contudo, Adoniran Barbosa colheu pouco em vida, negligenciado pela Rádio Record, que nunca lhe deu um aumento, e solitário após a saída do parceiro Osvaldo Moles para a Rádio Bandeirantes, caiu no ostracismo e consequentemente na tristeza.

Morreu aos 72 anos no dia 23 de novembro de 1982, pobre e esquecido. Está enterrado no Cemitério da Paz no bairro do Morumbi no momento de sua morte estavam presentes apenas a esposa e uma irmã dela. Após a morte Adoniran foi reconhecido como pai do samba paulistano, e locais onde o flâneur paulistano transitou ainda sobrevivem em São Paulo.

Onde encontrar Adoniran em São Paulo

O Palacete Tereza Toledo, que abrigou a Rádio Record na época de Adoniran Barbosa e hoje funcionca como Bar e casa de shows Casa de Francisca

Adoniran viveu por anos no edifício Santa Ignez, no centro de São Paulo, onde compôs Saudosa Maloca, lançada em 1951. O prédio que se sobrepôs a maloca cantada na música ainda existe na Rua Aurora, assim como outros símbolos da vida do sambista. O Palacete Tereza Toledo Lara onde funcionava a Rádio Record, e onde Adoniran trabalhou até meados da década de 1970, é aberto ao publico como bar e casa de shows Casa de Francisca.

Boêmio, Adoniran tinha uma mesa cativa no salão principal do Bar Brahma, um dos mais tradicionais de São Paulo, e que hoje o homenageia com uma estatua própria e do cachorro Peteleco, na esquina da Ipiranga com a São João. Outro ponto que resiste ao tempo é o Ponto Chic no largo do Paissandu, onde na década de 1950 Adoniran costumava frequentar para saborear o popular bauru acompanhado por um chope.

Já no Boteco 28, localizado no vigésimo oitavo anda do Farol Santander, é possível encontrar parte do acervo do sambista, com mais de mil pertences, incluindo o chapéu, a gravata borboleta e diversas fotos. No menu do bar, o prato Marmita do Adoniran, inspirado na música Torresmo à Milanesa.

O Centro Cultural Vila Itororó fica na rua Maestro Cardim no bairro Bela Vista e tem uma programação cultural extensa

Para encontrar o sambista fora do centro de São Paulo, vá até o Bixiga, no bairro Bela Vista. Lá ele virou nome de Rua entre a Jaceguai e a Brigadeiro Santo Antônio e também a uma sala no Centro Cultural São Paulo. O Centro Cultural Vila Itororó na rua Maestro Cardim é outro ponto por onde a carreira de Adoniran passou e onde em 1970 se encontrou com Elis Regina. Lá foram gravadas cenas do filme Saudosa Maloca, lançado em 21 de março de 2024.

O filme retrata os anos finais da vida do sambista, interpretado pelo músico dos Titãs, Paulo Miklos, que repete o papel que já havia interpretado em 2015, no curta metragem Dá Licença de Contar. Adoniran Barbosa passou os últimos anos de vida desgostoso com São Paulo. “Até a década de 60, São Paulo ainda existia, depois procurei mas não achei São Paulo. O Brás, cadê o Brás? E o Bexiga, cadê? Mandaram-me procurar a Sé. Não achei. Só vejo carros e cimento armado”, teria dito.