
De origem francesa, a palavra flâneur é usada para descrever um andarilho que experimenta a cidade como se quisesse desvenda-la. Um caminhante cuja rua é moradia, e que entre as fachadas dos prédios sente-se em casa. Desde que começou a vir para São Paulo de trem na década de 1930, Adoniran Barbosa criou uma relação profunda com a capital paulista, principalmente com o centro onde morou e por muitos anos trabalhou.
Além de amor e boemia, cantou sobre o crescimento desenfreado da chamada selva de pedra, e como bom flâneur, captou esse processo de urbanização acelerada. Entretanto, no fim da carreira, estava infeliz pois nas próprias palavras por mais que procurasse, não conseguia encontrar a São Paulo que havia conhecido. A população havia aumentado, e quanto mais prédios subiam, mais as antigas casas (ou malocas) iam embora, e com elas todo um modo de vida que era impiedosamente esmagado.
João Rubinato

Adoniran Barbosa nasceu João Rubinato, em Valinhos, 1910. Filho de descendentes de italianos, se mudou com a família primeiro para Jundiaí em 1918, e, posteriormente, para Santo André em 1924. Sonhava em ser cantor, e na década de 1930, começou a vir para São Paulo de trem. Achava que o próprio nome não combinava com a profissão, por isso pegou o nome de um amigo, e o sobrenome do sambista Luiz Barbosa, e formou o nome artístico, Adoniran Barbosa.
No início dos anos 1940, entrou para a Rádio Record depois de muita insistência. Lá ele nunca foi reconhecido como músico ou compositor, mas sim humorista. Na mesma rádio, conheceu o radialista e escritor Osvaldo Moles, que se tornaria seu principal parceiro nos programas de rádio e nas composições musicais.
Como a rádio ficava no centro, ele logo formou uma ligação profunda e íntima com a região por onde transitava e observava o cotidiano de trabalhadores, bares e cortiços de São Paulo. Das observações vieram as músicas, embora Adoniran dissesse que não sabia fazer samba, simplesmente fazia. A primeira música de sua autoria gravada por um outro artista foi Dona Boa, na voz de Raul torres em 1935. mas o primeiro sucesso viria em 1964 com Trem das Onze, gravada pelo grupo Demônios da Garoa.
Adoniran só lançou o primeiro disco homônimo em 1974 , seguido por outro em 1975, e o último em 1980. O estilo de cantar era igual ao do também sambista Orlando Silva, mas o português falado era único, com uma mistura com o italiano e uma maneira errada de falar que chegou a incomodar o poeta Vinicius de Moraes. “É preciso saber falar errado para cantar essas musicas”, teria dito Adoniran que não se importou com as críticas e transformou em música um poema de Vinicius chamado Bom Dia, Tristeza.
Falou sobre amor nas composições Tiro Ao Alvaro e Joga a Chave Meu Bem, sobre o mundo que se sobrepõe a outro em Saudosa Maloca e Despejo na Favela, e muitas canções eram estreladas pelos amigos do Brás – Joca, Arnesto e Mato Grosso. Contudo, Adoniran Barbosa colheu pouco em vida, negligenciado pela Rádio Record, que nunca lhe deu um aumento, e solitário após a saída do parceiro Osvaldo Moles para a Rádio Bandeirantes, caiu no ostracismo e consequentemente na tristeza.
Morreu aos 72 anos no dia 23 de novembro de 1982, pobre e esquecido. Está enterrado no Cemitério da Paz no bairro do Morumbi no momento de sua morte estavam presentes apenas a esposa e uma irmã dela. Após a morte Adoniran foi reconhecido como pai do samba paulistano, e locais onde o flâneur paulistano transitou ainda sobrevivem em São Paulo.
Onde encontrar Adoniran em São Paulo

Adoniran viveu por anos no edifício Santa Ignez, no centro de São Paulo, onde compôs Saudosa Maloca, lançada em 1951. O prédio que se sobrepôs a maloca cantada na música ainda existe na Rua Aurora, assim como outros símbolos da vida do sambista. O Palacete Tereza Toledo Lara onde funcionava a Rádio Record, e onde Adoniran trabalhou até meados da década de 1970, é aberto ao publico como bar e casa de shows Casa de Francisca.
Boêmio, Adoniran tinha uma mesa cativa no salão principal do Bar Brahma, um dos mais tradicionais de São Paulo, e que hoje o homenageia com uma estatua própria e do cachorro Peteleco, na esquina da Ipiranga com a São João. Outro ponto que resiste ao tempo é o Ponto Chic no largo do Paissandu, onde na década de 1950 Adoniran costumava frequentar para saborear o popular bauru acompanhado por um chope.
Já no Boteco 28, localizado no vigésimo oitavo anda do Farol Santander, é possível encontrar parte do acervo do sambista, com mais de mil pertences, incluindo o chapéu, a gravata borboleta e diversas fotos. No menu do bar, o prato Marmita do Adoniran, inspirado na música Torresmo à Milanesa.

Para encontrar o sambista fora do centro de São Paulo, vá até o Bixiga, no bairro Bela Vista. Lá ele virou nome de Rua entre a Jaceguai e a Brigadeiro Santo Antônio e também a uma sala no Centro Cultural São Paulo. O Centro Cultural Vila Itororó na rua Maestro Cardim é outro ponto por onde a carreira de Adoniran passou e onde em 1970 se encontrou com Elis Regina. Lá foram gravadas cenas do filme Saudosa Maloca, lançado em 21 de março de 2024.
O filme retrata os anos finais da vida do sambista, interpretado pelo músico dos Titãs, Paulo Miklos, que repete o papel que já havia interpretado em 2015, no curta metragem Dá Licença de Contar. Adoniran Barbosa passou os últimos anos de vida desgostoso com São Paulo. “Até a década de 60, São Paulo ainda existia, depois procurei mas não achei São Paulo. O Brás, cadê o Brás? E o Bexiga, cadê? Mandaram-me procurar a Sé. Não achei. Só vejo carros e cimento armado”, teria dito.




