Fama e Anonimato

O desfile que incomodou: Vai Vai leva ranhuras de São Paulo à avenida

Carro “Manifesto Paulistano Ressignificando São Paulo” da Vai-Vai. — Foto: Carlos Henrique Dias/g1

Pelas regras da entidade que administra o carnaval de São Paulo (LigaSP): para não perder pontos cada uma das 34 escolas de samba do grupo especial deve cruzar os 530 metros da pista de desfile do sambódromo do Anhembi em no mínimo 55 e no máximo 65 minutos. Porém, na mais recente disputa, o antigo cordão e hoje escola de samba, Vai Vai parece ainda estar na avenida.

De volta ao grupo especial, a maior campeã da história do carnaval de São Paulo abriu a primeira das duas noites de apresentações no dia 10 de fevereiro de 2024, com um desfile que incomodou e reacendeu na mídia a pauta de que a escola de samba seria um reduto de criminosos.

O enredo de 2024 era uma homenagem ao Hip-Hop, gênero que no Brasil completou 40 anos de existência em 2023, e que surgiu nos encontros do centro de São Paulo. Um movimento que envolve arte, espaço urbano e tem tudo a ver com o Vai Vai, que teve problemas antes mesmo de entrar no Anhembi.

Quando eu não puder pisar mais na avenida

Clipe oficial do samba enredo 2024 do Vai Vai com o enredo Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo, o Hip Hop: Um Manifesto Paulistano

O Vai Vai surgiu em 1930 como um Cordão Carnavalesco e Esportivo, formado por um grupo de sambistas do bairro do Bixiga, que animavam os jogos de um time de futebol dos anos 1920, o Cai-Cai. Uma vez que os desfiles das escolas de São Paulo foram oficializados em 1968, os cordões ainda tentaram resistir, porém foram forçados a se adaptar à época e em 1972 o cordão Vai-Vai se transformou em escola de samba.

Segundo site oficial, a escola sempre deve ser tratada no masculino, “o Vai-Vai”, em referência ao Grêmio Recreativo, evolução do cordão. As cores são preto e branco, e os símbolos são uma coroa e ramos de café. A coroa simboliza a realeza e a magnitude da raça negra, e os ramos de café simbolizam a maior fonte de riqueza econômica de São Paulo à época da criação do cordão.

Hoje o Grêmio Recreativo Cultural e Social Escola de Samba Vai-Vai é uma das principais agremiações do Carnaval Brasileiro, e a maior campeã do Carnaval de São Paulo, com 15 títulos do Grupo Especial e 10 vice-campeonatos. O último título foi em 2015 com enredo em homenagem à Elis Regina.

Festa de Anuncio do samba campeão do enredo de 2024 da Escola de Samba Vai Vai

Em junho de 2023, o Vai Vai abriu a disputa para a composição do samba de 2024, e o enredo escolhido foi Capítulo 4, Versículo 3 – Da Rua e do Povo, o Hip Hop: Um Manifesto Paulistano. O título é uma referência a uma música do disco Sobrevivendo no Inferno dos Racionais MC’s, um dos grupos que surgiu nos encontros na Rua 24 de Maio e no metrô São Bento, o berço do Hip-Hop na capital paulista, região homenageada no novo samba:

Balançou, balançou o Largo São Bento
Moinho de vento, a ginga na dança
Grande triunfo do movimento
No breaking o corpo balança

Desses encontros no centro de São Paulo surgiram artistas como Nelson Triunfo, Rappin Hood e Thaíde, que incialmente estava desconfiado sobre o enredo, “a primeira vez que eu ouvi sobre a possibilidade de ter rap com o Vai-Vai eu me perguntei se iria dar certo. E deu muito certo. Mas é a primeira vez que o Vai-Vai ou uma escola de samba falarão exclusivamente sobre a cultura hip hop. Isso sim é algo surpreendente.” disse o rapper.

Em outubro, o samba composto por treze compositores foi anunciado na quadra da escola, hoje a do Sindicato dos Bancários de São Paulo, já que a antiga quadra foi fechada devido as obras do metrô da cidade. Em janeiro, o Vai Vai fez uma festa para comemorar os 94 anos, no Vale do Anhangabau. Entre as atrações previstas: Racionais, Dexter, Negra Li, e a bateria da escola, porém a festa terminou antes.

Equipes da Polícia Militar foram acionadas e os shows foram cancelados sob o argumento de tumulto e superlotação. Tudo em pleno centro de São Paulo. E ainda faltavam duas semanas para o Vai-Vai entrar na avenida.

Na avenida vamos levantar a massa

O desfile do Vai Vai abriu a primeira noite de apresentações no sambódromo do Anhembi

Desenvolvido pelo carnavalesco Sidnei França, o desfile começou com um carro representando a saída do metrô São Bento e as origens do Hip-Hop no Brasil. Na sequência uma crítica à Semana de Arte Moderna de 1922, retratada como uma vanguarda artística aristocrática da cidade e cantada no samba no seguinte trecho: Renegados da moderna arte / Não faço parte da elite que insiste em boicotar.

O contraponto a essa arte da elite é justamente o movimento do hip-hop, que assim como o samba vem das periferias e que enfrenta a desigualdade social, o racismo e a violência policial. Ambos os gêneros também se encontraram no ritmo da Pegada de Macaco, bateria do Vai Vai, comandada pelo Mestre Tadeu.

Na ala Sobrevivendo no inferno, policiais são retratados como seres diabólicos em alusão a truculência policial presente na cidade de São Paulo, e o encarceramento em massa de jovens negros. No último carro, a estátua de Borba Gato sinalizando a necessidade de resignificar o espaço urbano e lembrada no trecho do Fogo na estrutura / Justiça, Igualdade e Paz. Assim se encerrou o desfile.

Qual mentira vou acreditar

O desfile foi criticado pelo sindicato dos Delegados de São Paulo e endossado por políticos

Os primeiros incomodados com o desfile foram os delegados de São Paulo, que através de uma nota do sindicato da categoria, exigiam que a agremiação fizesse uma “retratação pública”. Depois vieram parlamentares da chamada “bancada da bala”, que oficiaram o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito da capital, Ricardo Nunes, para que esses bloqueassem o repasse de recursos à escola, por ter difamado a instituição da Polícia Militar com o desfile. 

O deputado Paulo Bylinskji pediu que a Câmara dos Deputados convoque o ministro Silvio Almeida para explicar por que desfilou em uma escola de samba cujo enredo “criminaliza a polícia” e ao lado de Paulo Galo, que liderou a ação que incendiou a estátua do bandeirante Borba Gato em 2021. Essa foi a primeira onda de criticas, as quais entravam na narrativa de “quem critica a polícia é bandido”, mas logo surgiu uma segunda narrativa, associando samba e hip-hop a criminalidade.

A Folha de S. Paulo noticiou no dia 14 de fevereiro que um suspeito de chefiar o PCC emprestou R$ 300 mil para o Vai Vai desfilar em 2022. O mesmo jornal aproveitou para requentar a noticia de que o Vai-Vai seria um reduto de membros da facção criminosa. Pouco se falou sobre o fato de o Vai Vai estar sem quadra e lutar contra a Administração Pública por espaço urbano.

Mano Brown, dos Racionais MC’s, presente no desfile do Vai Vai no primeiro dia de desfiles do Carnaval de São Paulo

O resultado do carnaval de São Paulo já saiu, e o Vai Vai terminou em oitavo ligar. A escola campeã foi a Mocidade Alegre, com o enredo Brasileia Desvairada: a Busca de Mário de Andrade por um País. Um enredo tolerado, , sem desmerecer a escola campeã. como diz o professor Dennis de Oliveira, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

As criticas do Vai Vai na avenida ainda repercutem, especialmente quando um homem negro foi preso injustamente em Porto Alegre. O samba de 2024 há de lembrar que o “Vai Vai manifesta o povo da rua, é tradição e o samba continua”. E segundo o professor Dennis, “o Vai-Vai incomodou pelo enredo de 2024, mas incomoda há muito mais tempo por reunir milhares de pretos e trabalhadores no centro da cidade”.